Entrevista para a Revista Girista.com

Homero Gontijo de Morais Filho, 35 anos, é empresário e girista, no centro-oeste de MG. Seu currículo acadêmico é um curso incompleto de Medicina Veterinária pela UFMG e dois MBA pela Fundação Getúlio Vargas-RJ, na condição de ouvinte. Representa a quarta geração de zebuzeiros da família, que atua no zebu desde 1935. Vive entre a fazenda em Dores do Indaiá e Luz, e a capital Belo Horizonte, onde nasceu. Pratica a seleção de animais Gir puros e a criação de fêmeas Girolando ½ sangue, trabalho herdado de seu pai, iniciado há 20 anos. Tem convicções firmes a respeito da raça e suas funções. Purista, conduz sua seleção ao seu modo, a despeito de modismos ou circunstâncias momentâneas, para que não influenciem um trabalho quase sacerdotal de décadas ou de gerações. A seguir ele tece alguns comentários acerca da raça, de sua visão e o futuro do Gir.

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01. Girista.com – Você é um criador definido em relação às adjetivações que existem hoje na raça. Gir padrão, Gir dupla-aptidão, Gir de Carne, Gir leiteiro, dentre outras. O que é o Gir para Homero Gontijo Morais Filho?

O Gir para mim é a raça mais versátil do mundo, não a que produz mais, mas a que produz por menos, em condições naturais, e aí está seu grande diferencial, na economicidade.
Apesar de não gostar destes termos, prefiro o Gir padrão, por estar relacionado ao cuidado com o padrão racial. Embora eu não selecione para uma única característica, concordo em distinguir Gir Leiteiro ou de carne, desde que se faça uma seleção honesta, mas ambos tem que ter padrão racial. Mesmo os criadores de Gir com finalidade exclusivamente leiteira hoje prezam mais o padrão racial que há 5 anos atrás. Chamar o Gir de dupla-aptidão é pouco, a raça é muito mais que isto.

02. Girista.com – Você é um empresário na atividade automobilística muito bem sucedido. É rico porque cria Gir ou cria Gir porque é rico?

Nenhum dos dois, não existe correlação. E nem sou rico. Qualquer um cria Gir, por mais humilde que seja, porque o animal praticamente não exige, em condições normais. O Gir chega até a viabilizar a permanência de famílias pobres no campo, provendo leite e carne em condições adversas. Mas não é qualquer um que seleciona gado. Seleção é diferente de criação, e todos querem selecionar, muitas vezes, sem condições. Minha atividade pecuária é viável e lucrativa, se não fosse eu já teria saído. Mas não me permite ostentar riqueza. Portanto,não sou rico porque crio Gir. E também jamais retirei um centavo sequer de minha empresa para colocar na fazenda, ao contrário do que muitos possam pensar. Inclusive em 2002, em uma conjuntura totalmente desfavorável, abri duas lojas que representam hoje 40% de minha empresa com dinheiro da fazenda, advindo da venda de animais. Então também não crio Gir porque sou rico.

03. Girista.com – Você faz um leilão anual com aproximadamente 400 fêmeas ½ sangue gir x holandês. Esta fêmea mestiça, em sua visão, pode ser considerada como uma funcionalidade leiteira da raça Gir?

Não só é uma funcionalidade leiteira da raça Gir como é a sua principal funcionalidade leiteira, sua maior contribuição em todo o mundo tropical. Ou você sabe me dizer alguma fazenda que se sustenta exclusivamente entregando leite de Gir puro para a cooperativa ou laticínio? Não conheço nenhuma. Não imagino nenhum pecuarista de leite vendendo vacas mestiças e colocando Gir puras em seu lugar, com o intuito de ordenhar. Mas temos milhões de animais leiteiros oriundos de Gir. Eu acredito em uma pecuária leiteira lucrativa com Gir, mas não nos moldes e sistemas de produção preconizados atualmente, na contramão da rusticidade e da economicidade.


04. Girista.com – Certa feita você afirmou que um selecionador que possui um plantel de sementes puras Gir com mais de 100 animais, não é mais selecionador, e sim, criador. Explique melhor isso.

O que eu quis dizer é que em qualquer plantel, seja de 50, 100 ou 1.000 animais, existe uma grande influência de pouquíssimos animais. Na realidade, em um processo de alta pressão seletiva, temos 3 ou 5% de animais que perpetuam sua genética no rebanho, o restante é volume e esvai com o tempo. Hipoteticamente, em um plantel de 100 vacas que necessita ser renovado em 15 anos, é preciso repor 7 fêmeas ao ano, na cabeceira. Só 7, em 100 matrizes. Parece moleza, mas não é, em altíssimo nível. Fazer uma reposição realmente melhorada a uma taxa de 10% ao ano deveria ser regra, mas em termos gerais é difícil de ser alcançada, repito, em altíssimo nível. Você pode garantir que 10% de suas fêmeas jovens é melhor que sua cabeceira atual? É uma pergunta que todo selecionador deveria se fazer.

05. Girista.com – Você tem sido muito exigente em relação ao padrão racial do gado Gir. Como seria uma vaca Gir ideal para você, fenotipicamente ?

Raçuda, cabeça ultraconvexa, levemente encarneirada, orelhas encartuchadas e gavionadas, crânio seco, bem inserido ao pescoço feminino, olhos puxados, marrafa estreita, chifres chatos ou ovalados, delicados, base alinhada aos olhos, direcionados para baixo, para trás ou para frente, cupim farto, bem posicionado, característica primordial do zebu, sinal de rusticidade e reserva energética. Gosto de animais de porte, volumosos, grandes, no mínimo médios, profundos, de garupa larga, não muito inclinada,bem coberta, virilha baixa, bem aprumados, inserção de cauda correta.. Gosto da vaca carcaçuda e da vaca boa de leite, mas não gosto dos animais muito descarnados, sem força. A minha vaca ideal é a vaca que me acostumei a ver desde pequeno, a vaca de meu tio Deraldino Morais, de Oswaldo Araújo e de Jorge Cordeiro, enfim, o típico Gir de Dores do Indaiá. É um modelo de animal que conheço bem, confio e sei que é viável, sem utopias ou invencionices, em nosso meio.

06. Girista.com – Hoje a realidade da biotecnologia invadiu os currais brasileiros. Como você vê o uso da IA (inseminação artificial), a TE (transferência de embriões), a FIV (fecundação “in vitro”) e agora por último a clonagem dentro da raça Gir?

É fundamental saber usar estas ferramentas com prudência e responsabilidade. São recursos extraordinários, mas não são baratos, e têm sido usados de forma indiscriminada. O que era vaca comum há 15 anos hoje é doadora. Existem matrizes com vários filhos que nunca pariram naturalmente. Isto não é seleção, é reprodução acelerada. Mas vai entrar no eixo. Seleção é o que fazia Joãozito Andrade, na caatinga baiana, selecionando Nelore sem sal mineral, vermífugos ou sequer pastos formados, ou o que fez Evaristo de Paula em Curvelo, no Gir. Fizeram na quietude do sertão o que vários milionários não conseguem fazer hoje com uma vasta gama de recursos. Rebanhos fenomenais. Eu disse rebanhos, não indivíduos. Atualmente estamos cultuando indivíduos e desprezando o conjunto da obra, o rebanho.

07. Girista.com – Como é o manejo do gado Gir nas Fazendas Onça e Grotão? Algo que foge ao lugar comum?

Não tem mistério. Lugar de Gir é no pasto. Vaca Gir só vai ao cocho se estiver passando fome. É 365 dias de pasto, pasto mesmo, sobrando. Cocho só se precisar, se estiver magra ou doente. De 726 matrizes em reprodução tratei de menos de 100 no cocho durante a seca este ano, com 5ha de capim do qual faço silagem 2 vezes ao ano, para vacas, bezerros novos e animais de pista. O capim é a minha lavoura. Calendário sanitário completo e mineral protéico-energético o ano todo. Desmamo meus bezerros com 4 meses de idade, sendo que aos 2 meses eles já mamam só 1 vez ao dia. Ainda não fechei 2012, mas tenho 82% de eficiência reprodutiva e 14 meses de intervalo entre partos, contando as vacas problema. Dos 4 meses aos 9 os bezerros ficam no pasto com o protéico-energetico e 1kg de ração/dia. Depois dos 9 meses, só pasto e protéico-energetico. Leite pra mim é insumo, e não fonte de receita principal. O leite é a melhor ração que tenho. Se a vaca dá muito, trata de 2,3 ou 4 bezerros. Se pelo menos não desmama um bezerro bom, sai do plantel. Uma vaca de campo que desmama um bom bezerro, se estivesse bem arraçoada e estimulada faria um controle de 3.000kg com certa facilidade. Minha rotina é cria, é fazer bezerras, não gira em torno de ordenhas, meu foco não é esse. Eu crio animais de leite e de corte, e seco várias vacas dando muito leite. Quero vacas raçudas de 500-600kg, que parem uma vez ao ano, durem 20 anos e dêem uma sobra de leite de 5litros/dia, eu disse sobra líquida, sem custos adicionais ou investimentos. Quero elas prenhes no pasto novamente o mais rápido possível. Quero vacas que dêem dinheiro, no campo, e não consumam dinheiro, em estábulos.

08. Girista.com – Você possui um touro chamado Carbono que teve seu sêmen muito solicitado no mercado. A princípio, não sei agora, você optou por não comercializar esse tipo de material genético, porém, disponibilizou filhos desse touro ao mercado. Algum motivo especial?

Carbono é um animal extremamente diferenciado, não só como indivíduo, mas em sua genética. É um dos machos mais bonitos que já conheci, e representa linhagens praticamente extintas na raça, como Krishna Gori Rupia, Norte 65 J-5, Czar, e Gaiolão. Tudo vale pela sua raridade, seja um carro, um quadro, uma roupa, nós mesmos enquanto profissionais valemos pela nossa raridade. A não ser que seja para posiciona-lo assim, como raridade, vou colocar um touro desse em central para comercializar centenas ou milhares de doses por 2 reais de lucro em dose? Vendo um filho dele pelo lucro de 2000 doses, sem risco. Quando se fala em vendas de 2.000, 5.000 ou mais doses por mês, ou por valores acima do comercial, a conversa muda, mas não posso trabalhar com esse horizonte, a princípio. Quer um produto raro? Tem preço.

09. Girista.com – Qual o melhor mercado para o girista: produzir e comercializar mestiças ou animais PO (Puro de Origem)?

Comercializar fêmeas puras de alto nível é sempre bom financeiramente, mas para onde vai a seleção? E nos dias atuais, com super oferta e mercado saturado? Não procure comigo, nunca vendi uma fêmea Gir e continuarei assim por um bom tempo. Digo isto porque estabilizei meu rebanho e faço o número exato de fêmeas puras para repor meu plantel em 15 anos. A grande maioria das matrizes faz Girolando. Isso me proporciona uma pressão de seleção fortíssima no PO, por consequência no Girolando, independência de compras para reposição e alta liquidez da produção, uma vez que todo o Girolando é vendido. Ou seja, com o Gir faço seleção, e com o Girolando faço dinheiro. Uma coisa alimenta a outra.

10. Girista.com – Você está há alguns anos na estrada e possui uma tradição familiar na raça Gir. Qual a sua perspectiva futura para a raça no Brasil?

Meus bisavôs passaram pela crise do Zebu nos tempos de Getúlio, um tio-avô meu se suicidou por causa disso. Quando forçosamente assumi o plantel de meu pai por ocasião de sua morte em 1998, o Gir passava por uma grave crise. Rebanho em declínio acentuado, baixo valor de mercado. Ciclos vêm e vão, racional ou irracionalmente, em qualquer ramo ou setor da economia. Enquanto eu for fazendeiro, serei girista. E não tenho motivo para deixar de ser fazendeiro.
A raça já se consolidou como fundamental na pecuária leiteira tropical, e isto é definitivo, é chover no molhado. Recentemente, me filiei ao projeto Brazilian Cattle da ABCZ, vislumbrando um mercado inexplorado, muito maior e mais rico que o mercado leiteiro da América do Sul e Central. Promoveremos o Gir na África, Austrália e América Latina também, mas com outro foco. Pergunto: porque existem touros Gir vendendo sêmen na América do Norte? Para aumentar leite não é. Pela rusticidade zebuína também não, admitem no máximo um intercruzamento entre taurinos HPB, Jersey, Airshyre ou Pardo, pois o gado é estabulado. De onde veio o Red Brahman? Quanto o Fasano ou o Rubayat pagariam por um premium-beef de Gir com Angus, Hereford ou Simental? Se um ½ sangue dessas raças com Nelore já é bom, imagina com Gir, que tem muito mais temperamento, mais culote, mais maciez, uma carne muito mais nobre. Além disso, nenhuma raça zebuína é mais apta a fornecer as receptoras que a ABCZ busca do que a Gir, seja pela habilidade maternal, temperamento, etc. A turma antiga sabe do que estou dizendo. A turma nova só sabe de leite, só ouve leite. Já estão até criando vaca Gir igual Holandesa...
Quem souber entender e explorar a condição do Gir, inclusive no que concerne á sustentabilidade, vai se dar bem. Quem entender que a vaca Gir é uma máquina, uma indústria, nos moldes americanos e europeus de exploração, terá de criar condições que inviabilizam o lucro, ou será sumariamente penalizado pela natureza, que é o melhor selecionador do mundo.

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Como fazer um ótimo Girolando meio-sangue